A lógica que subjaz ao funcionamento ritualístico do terreiro que separa os iniciados dos não iniciados está relacionada às terapêuticas de cura mágica. Quem procura o terreiro, procura por motivações, que pode ser de natureza meramente física, como doenças do corpo, ou de natureza espiritual, como doenças da cabeça, que pode ser melancolia, depressão, encosto ou possessão ou ainda de ordem prática, como desemprego ou uma perda afetiva, mesmo alguma suspeição da mulher em relação ao marido ou vice-versa.
Dependendo a etiologia da motivação terapêutica, será aplicado uma recomendação ou ritual, que pode ser um despacho ou um bori. Se for uma doença do corpo, poderá ser indicado um bori d´água ou ainda uma intervenção do pai-de-santo junto ao seu santo de cabeça. Nesse caso, ele irá recolher-se à casa de Iemanjá por horas seguidas, que só acontece quando o cliente já recebeu um diagnóstico médico desanimador. Ou ainda através do Exu Zé Pilintra, incorporado pelo pai-de-santo, sendo este único a dispensar atendimentos nos rituais do terreiro.
Se o desconforto for por motivações de desequilíbrio da mente, isso é classificado como uma desarmonia espiritual, e envolverá uma complexa dramatização em torno do cliente que culmina quase sempre em sua adesão à religiosidade afro-brasileira. Porém, se for desequilíbrio por possessão será feita uma gira para que essa entidade possessiva se manifeste e abandone o corpo do cliente. Quase sempre, situações assim, também culminam com a adesão do neófito ao terreiro, tanto que são várias histórias de como os filhos começaram sua vida religiosa pela desobsessão de um espírito maligno a partir da casa de culto.
Caso a motivação seja de ordem prática, a intervenção se dará através de indicações e sugestões durante o jogo de búzios ou tarô, ou ainda através do atendimento pelo Zé Pilintra, durante as giras. Essa entidade é a que mais permanece no terreiro, geralmente em torno de uma hora, quando recebe pedidos sobre empregos, de restabelecimento de relações afetivas rompidas ou conflitos familiares etc. É preciso dizer que a centralidade que o pai-de-santo exerce sobre o terreiro, manifesta-se também nos rituais: ele é o único da dar consultas em transe.
CONCLUSÃO
O que quisemos mostrar é que em Portugal repete-se o mesmo modelo estruturante de funcionamento das religiões afro-brasileiras no Brasil, dado pelas acusações mútuas. Isso se sucede por serem religiões, principalmente a umbanda suscetíveis de transformação decorrentes da necessidade de reconstrução constante e de adaptação às exigências da realidade que as cerca. Por absorverem para seu interior as idiossincrasias da sociedade e da cultura portuguesa, elas abrem possibilidades de novas leituras religiosas no campo religioso afro-brasileiro em Portugal.
A espetacularidade e a manipulação dos símbolos afro-brasileiros nos terreiros portugueses tornam visíveis, por uma lógica dada pela sua própria cultura, os códigos, linguagem e símbolos, o uso e o abuso de aspectos vivos da cultura brasileira. Acionados como finalidade terapêutica de ação sobre o corpo e o espírito pela autoridade simbólica dos pai-de-santo portugueses, essas religiões revelam-se como eficientes agencias de cura neste país. Por fim, percebidas a partir da dinâmica das relações sociais que envolvem chefes de terreiros brasileiros e portugueses, a ideia ainda foi apontar como paixões, conflitos, competição e a manipulação dos símbolos afro-brasileiros projetados em Portugal, estão em consonância com as mesmas ambições das religiões afro-brasileiras no Brasil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário