A abertura das primeiras casas de culto afro-brasileira, arregimentando seguidores entre portugueses datam dos anos 70, após a Revolução Cravos. Saraiva (2011, p. 59) menciona que as diferentes ligações mantidas pelos quadros dessas religiões em Portugal com o Brasil, podem ser explicadas por três importantes movimentos associados às relações de migração e trânsito de pessoas entre Portugal e o Brasil. Primeiro, estariam os portugueses cujas referências primordiais estão no Brasil por conta da emigração; e os portugueses, que já membros das religiões afro-brasileiras em Portugal partem para a qualificação em terreiro no Brasil. No segundo grupo estão os brasileiros que migraram do Brasil para Portugal e que seguiram praticando essas religiões no novo país. Com eles estão ainda os brasileiros que emigram para atuar especificamente como lideres religiosos. No terceiro, estão os brasileiros que vão a Portugal para darem consultas religiosas e, em seguida voltam para o Brasil. Estes últimos, sobremaneira, são convidados ou apoiados por terreiros geralmente conduzidos por pais-de-santo portugueses.
A esteira desse processo, Virgínia Albuquerque, segundo Pordeus foi a primeira mãe-de-santo em Portugal. Ela teria migrado para o Brasil com o marido e os filhos na década de 50, e de acordo com o autor,
Sua adesão à umbanda se deu da mesma maneira que encontramos no discurso de grande parte dos umbandistas: sentia tonturas e procurou, em 1960, em Jacarepaguá, bairro da cidade do Rio de Janeiro, um terreiro denominado Vovó da Bahia, pertencente à mãe-de-santo, Lucinda. Ressalva que o terreiro era da “linha de Omolocô”. Em meados da década de 70, o marido, achando que os negócios não iam bem, resolveu retornar a Portugal e instalaram-se em Lisboa. Virgínia começou a trabalhar na casa de Oxóssi. Depois saiu dessa casa e foi para a casa de Santa Bárbara de Almada, em 1984, onde permaneceu até o momento que resolveu fundar sua própria casa, designando-a de terreiro de umbanda Ogum Megê, em 1989 (PORDEUS Jr., 1996, p. 93).
Depois da abertura do terreiro, ela teria feito a iniciação das primeiras mulheres na umbanda de Portugal: Mariazinha, Conceição, Mariana e Albertina, repetindo o fenômeno da hegemonia feminina, apresentada aqui por nós em relação à bruxaria. Com Mariazinha, Albertina, ainda segundo Pordeus Jr., formaram-se aquelas que seriam as primeiras mães-de-santo de Portugal. Este será o núcleo propalador das religiões afro-brasileiras no país, numa simbiose entre umbanda candomblé, dada pelo fato de essas mães-de-santo transitarem perfeitamente entre essas duas religiões.
A maneira como se deu a adesão dos primeiros neófitos aos terreiros dessas mães-de-santo, pode ser entendida pela história de Conceição, uma senhora de 85 anos, que frequentemente está nos rituais mais importantes do terreiro de Pai João, como saídas de santo e festas, sendo também uma espécie de mãe espiritual, conselheira para ele e os filhos-de-santo. Ela é seguidora do candomblé kêto, e junto com Cláudio, filho biológico de Olga do Alaketo, tocou terreiro na Grande Lisboa, até que, por desentendimento entre os dois, afastou-se. Sua história, até se tornar mãe-de-santo mostra a dinâmica das religiões afro-brasileiras em Portugal, bem como serve como pano-de-fundo para compreender o estabelecimento do terreiro de Pai João.
Aos 20 e poucos anos mudou-se para o norte de Angola com o marido, um militar, quando em um dia qualquer, uma quitandeira ofereceu-lhe na porta de sua casa, uma fruta. Depois de tê-la comido, Conceição disse que jamais pode novamente ser a mesma pessoa. Passou a ter visões, ouvir vozes, tonturas e desmaios repentinos. Procurou ajuda num grupo de negros angolanos que praticava uma religião animista, que ela não se recorda o nome, numa floresta. Como era um ritual fechado, permitido apenas para negros, por intermédio de uma gerente de um hotel, sua amiga, foi levada para o lugar e submetida a uma sessão de exorcismo. Depois dessa experiência seus problemas foram apenas aliviados, mas não curados.
Nessa mesma ocasião, conheceu uma brasileira residente em Angola, praticante de umbanda, que adivinhou ser seu caso resultado de bruxaria. Recomendou-lhe um ebó para tirar os eguns que deveriam ser arriados no cemitério, ao meio-dia ou a meia-noite. Ela diz ter escolhido o meio-dia por sentir-se mais segura com a luz do dia. Então, durante nove dias seguidos, procedeu a recomendação de obrigações no cemitério. A recomendação era de que após os despachos, saísse sem olhar pra trás. Ela assim procedeu, embora com muito medo, segundo disse, por sete dias. No oitavo, quando saía, já no portão do cemitério, ouviu uma voz chamando-a, dizendo Esmelinda, que embora fosse seu nome verdadeiro, não era de conhecimento de outras pessoas da cidade. No nono dia o mesmo fenômeno voltou a repetir, e a partir daí ela se convenceu da existência de algo especial em sua vida, uma espécie de chamado de entidades sobrenaturais. Depois do movimento de independência de Angola, em 1974, ela e o marido retornaram para Portugal e sua história segue com a busca de explicações em reuniões espíritas, até que teve contato com Virgínia Albuquerque, que a principiou nos rituais de umbanda.
Sua história encontra-se com a de Pai João pela maneira como ela romperá com o terreiro de Albertina, uma das iniciadas de Vírginia, que em viagem ao Brasil fizera-se filha-de-santo com mãe Olga de Olaketu, na Bahia (ver: PORDEUS Jr. 2009). A aproximação de Albertina com Olga conferiu-lhe legitimidade às suas práticas religiosas, contributo importante para atrair clientes ao terreiro e para transformar-se no motor desencadeador de rivalidades internas e externas no terreiro, dada a competição iniciada com Virgínia, a ponto de, segundo disse Filipa, “na sexta-feira, Virginia matar uma galinha preta para Albertina, e Albertina para Virgínia”. As consequências das tensões no terreiro de Albertina geraram sua fissura, levando Cláudio a desvincular-se da casa de culto para trabalhar separado, seguido por alguns filhos-de-santo, inclusive Conceição. Rivalidades que também acentuarão a tensão no terreiro de Virginia, num momento em que pai João era um de seus filhos-de-santo.
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